18 de junho de 2012

A polêmica homenagem da Playboy a Saramago

Há exatos dois anos, falecia aos 87 anos, o consagrado (e polêmico) escritor português José Saramago, laureado em 1995, com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa e em 1998 com o Prêmio Nobel de Literatura. Sua carreira foi acompanhada de diversas controversias em torno de suas opiniões pessoais sobre religião.

No mês seguinte à sua morte, a revista Playboy de Portugal publicou um ensaio fotográfico em homenagem ao livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", lançado por Saramago em 1991 e que estremeceu a relação do escritor com a Igreja Católica, pela abordagem literária de temas bíblicos, sendo inclusive censurada pelo governo português. A obra faz uma releitura ficcional da vida de Cristo como um ser humano falho, ligado aos prazeres da carne.

O ensaio foi realizado no Bairro Alto, região boêmia da cidade de Lisboa, pelo fotógrafo Pedro Janeiro. Nas imagens, Jesus Cristo, ícone máximo da religião Cristã, aparece em meio a mulheres nuas, que protagonizam prostitutas. Na capa da revista, em uma clara referência à Pietá - porém com papeis invertidos - o modelo que encarna Jesus tem em seus braços uma mulher semi-nua, enquanto o letreiro deixa explicita a referência ao livro.

Não é preciso dizer que o ensaio causou enorme polêmica em Portugal - país com forte tradição católica - e na comunidade Cristã de forma geral. Em uma publicação, chegou-se a interpretar que Jesus estaria assumindo na cena um papel de voyer. Percebo, no entanto, que esse tipo de interpretação e toda a polêmica em torno das fotos, foram influenciadas muito mais pelo teor da obra literária de Saramago do que pelas imagens de fato, pois em todas as imagens, o ator que representa Cristo apresenta um semblante inexpressivo e com braços abertos como se estivesse acolhendo aquelas mulheres. Uma versão muito mais conservadora que o livro, onde o escritor descreve em detalhes a relação sexual de Jesus com Maria Madalena.

É possível concluir que a "blasfêmia" proferida por alguns religiosos está no histórico tabu da Igreja em relação à nudez e sexualidade humana, considerados vulgares, ofensivas. Nas pinturas renascentistas não é raro encontrar representações de Maria Madalena com os seios a mostra, porém, sempre sozinha. Nas imagens em que ela está representada junto a Cristo, no entanto, está sempre vestida.

As criticas, contudo, não se restringiram à temática do ensaio, mas também à qualidade estética e técnica das fotos. Chegou-se inclusive a sugerir que se tratava de uma tentativa de se aproximar da estética do polêmico fotógrafo americano David LaChapelle. Obviamente sem sucesso.

Insatisfeitos com a repercussão, a Playboy Enterprises surpreendeu ao anunciar o fim do contrato com editora Frestacom, responsável pela publicação portuguesa havia pouco mais de um ano.

"Não vimos nem aprovamos a capa e as fotografias do número de Julho da 'Playboy' Portugal. Trata-se de uma violação chocante das nossas normas e não teria sido permitida a publicação, se tivéssemos conhecimento antecipado" - declarou Theresa Hennessy, vice-presidente da Playboy, ao site Gawker.

A Playboy só foi regressar às bancas portuguesas em 2012, através da editora MediaPage, com nova equipe e uma nova abordagem editorial.

Veja as fotos do polêmico ensaio:

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